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sexta-feira, abril 16, 2004

El-P : "High Water" (2004, Thirsty Ear)



A colecção "The Blue Series" da editora Thirsty Ear pretende encontrar novos caminhos para o jazz, misturando em estúdio músicos de diferentes áreas. Neste disco calhou a vez a El-Producto, um dos melhores produtores de hip-hop esquizóide do planeta, junto com o Blue Series Continuum, um grupo dinâmico de personalidades do (free) jazz contemporâneo.
Não se encontram aqui novos caminhos para o jazz, mas é discutível que se possa dizer que este é sequer um disco de jazz. É música. E da boa!

Neste trabalho, o diabo está nos detalhes. Este disco é uma verdadeira mina de pormenores escondidos. Samples alienígenas daqueles a que El-P já nos habituou (nos Company Flow ou a solo), refundidos quer de filmes série Z, quer do electro/industrial dos 70s e 80s, quer sabe-se lá de onde, criam um esqueleto "electrónico" e ambiental onde assenta o jazz dos intrumentos "reais" (e mesmo esses foram manipulados à posteriori pelo produtor).
O ambiente geral deste disco lembra uma jam session fumarenta e algo negra a bordo de uma nave espacial. O produtor nunca exagera nos samples, nunca "encobre" os restantes músicos. E esse é talvez um dos grandes trunfos deste disco.

Os destaques:

"Sunrise Over Bklyn" é um fantástico tema de 10 minutos, sempre em crescendo, como se pudessemos testemunhar a calma da noite, a paz do nascer do sol, e o consequente rebuliço de actividade das pessoas a despertarem, com a cidade a ganhar vida, outra e outra vez.

"Get Modal" é funk à custa de um entrelaçar viciante de baixo e bateria, e de samples de vozes cortadas, scratching, um riff swingante de guitarra em loop e mesmo algum electro. A trompete treme, dança e abana-se em espasmos. A certo ponto, o piano de Matthew Shipp é "desafinado" digitalmente e parece estar bêbado, cambaleante, ora agarrado a James Brown, ora em plena pirueta de b-boy. Isto é (e não é) hip-hop, isto é (e não é) electrónica, isto é (e não é) jazz, isto é (e não é) Red Snapper de "Prince Blimey". Acima de tudo é génio.

"Intrigue In The House Of India" traz mistério e ambientes fumarentos. Começa com um pulsar electrónico repetitivo. Depois a flauta a dá o toque oriental, o piano e a trompete criam o ambiente de espiões em jogo duplo. A certa altura aparece a batida, entre mais samples cinemáticos. O mistério adensa-se, o fumo torna-se mais espesso e sinistro. Acaba com o mesmo pulsar electrónico do início.
A espaços chega a lembrar Amon Tobin de "Out From Out Where", talvez devido aos samples de Bollywood que este usa. É um dos melhores temas do album.

Em "When The Moon Was Blue", a voz rouca gravada pertence ao pai de El-P (o disco é-lhe dedicado), um pianista. É um tema muito melancólico, com crescendos algo perturbantes, o loop de cordas desafinadas a abrir é quase psicótico. Nota-se talvez alguma redenção e saudade (a voz repete incessantemente "Hey yesterday, when the moon was blue..."), todo o ambiente dá a entender que mais uma vez El-P coloca a sua difícil relação com o pai numa canção (já tinha acontecido em "Funcrusher Plus" dos Company Flow no tema "Last Good Sleep").

Um excelente disco, que não é de qualificação fácil. Hip-hop ou jazz ou electrónica ou trip-hop?
Simplesmente um belo disco, um dos melhores do ano até agora.

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