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domingo, maio 30, 2004

AGF em Lisboa, Zé Dos Bois, 28 de Maio de 2004

Num tempo em que a informação inunda cada momento das nossas vidas, é cada vez mais dificil parar para pensar.
Evitar essa tempestade de impulsos eléctricos, de frequências de rádio ou de luz, de comprimentos de onda, é impossível. O importante é conseguir sínteses, filtros, escolher o que interessa e relativizar tudo o resto.
AGF tenta conseguir essas sínteses. Tenta compreender o mundo digital que nos rodeia através da música e das palavras.
Neste concerto ofereceu mais de uma hora de viagens através das várias identidades que cada pessoa tem neste momento à sua disposição. Esquizofrenia on-line, uma personalidade para cada estado de espírito.
Poucos como AGF, Vladislav Delay ou William Gibson conseguem explicar tão bem o que é viver no nosso tempo, sentir esta evolução, como será ser absorvido pelo intangível, viver em milhares de mundos diferentes através dos mais variados interfaces (que são afinal os nossos corpos no virtual).
O amor no meio do mundo electrónico, o outro como um plug-in para a nossa alma. Ela canta, em "My Patch":

"you are my most amazing new patch... with the special features! … beautiful…"

Talvez esta magnífica capacidade de olhar este novo mundo, esta facilidade de o compreender se deva à mudança radical que ela sofreu. Passar de uma sociedade fechada para um mundo em que a informação é tanta que por vezes até nos deixa tontos e à procura de abrigos para esta tempestade.
Ela nasceu na Alemanha de leste, e tinha 19 anos quando o muro caíu. Explica-nos tudo isso em "Contemporary Westernized":

“I grew up cheap, without caring about consume.. where I come from… no information… no choices… but on the other hand, no homeless… flats were so cheap”

Como resumir as visitas à imensa World Wide Web? AGF explica:

"nothing exists until you realize that it is there. when you browse the web. some reading the same words at the same time. and yet you have no way of sensing their presence. silent world. designed space. revealing patterns. rhythms of people - if you could only see what i have seen with your eyes."

Em resumo, mais de uma hora de electrónica e voz, que pareceu uma conferência sobre este magnífico mundo novo. Sozinha em palco, ora se imergia na luz que saía do ecran do portátil, ora olhava os presentes nos olhos, sempre de microfone em punho.
Uma espectáculo em que nos foram fornecidos os estímulos para que pudessemos tirar as nossas próprias conclusões, viajar pelas novas fronteiras do amor, da humanidade, da (in)sensibilidade, das escolhas.
As cerca de trinta pessoas que tiveram a oportunidade de presenciar esta "performance" não ficaram indiferentes. Tanto os que conheciam os albuns como quem nada conhecia da obra dela.

Esperamos ansiosamente por mais visitas. Entretanto ela já nos deixou a resposta a algumas perguntas:

“how must we live?
… online.”


Para os que não conhecem o trabalho de AGF (Antye Greie-Fuchs) ouvir urgentemente o album "Westernizaton Completed" e visitar o site Poem Producer .

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sexta-feira, maio 28, 2004

DAT Politics em Lisboa, Zé dos Bois (27 de Maio de 2004)

UAU!
Depuração da pop ao mais infimo pixel digital, explosões de tecno e de melodias infantis, vozes em colapso próximas do punk, irreverencia digna de uns Negativland, caos organizado, pulos na audiência, ataques de zumbidos electrónicos a lembrar Merzbow, improvisação! Foi tudo isto o concerto dos DAT Politics ontem na Zé dos Bois. Um verdadeiro assalto às nossas entranhas! Música feita por crianças que exploram até ao tutano as potencialidades do instrumento que têm nas mãos, até se aborrecerem e partirem para outra. O trio de Lille mudou muito desde os tempos dos Tone Rec, abriram espaço para a pop, receberam-na de braços abertos, e agora trucidam-na como uma criança que espatifa a boneca que recebeu de prenda de Natal. Baseado nos últimos álbuns do grupo (o excelente "Go Pets Go" acabadinho de editar e o "Plugs Plus"), os DAT Politics também souberam passar do concreto (os temas compostos nos álbuns) para o espontaneo, com a irrequietude de quem não é capaz de fazer a mesma coisa duas vezes. Tanta irreverencia podia ser cansativa. Mas não foi, ao fim uma hora de concerto desejava mais, muito mais.

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segunda-feira, maio 24, 2004

Einstürzende Neubauten - Reedições

Segundo a Mute Records, um dos discos da minha vida vai ser reeditado com faixas extra. Estou a falar deste disco:



Para além deste disco, uma compilação de raridades também vai ser editada:



Isto são grandes noticias!

Aqui vai o texto completo:

EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN
KALTE STERNE - Early Recordings
TABULA RASA - Two CD Set
Release Date: 28th June 2004


Einstürzende Neubauten are set to release "Kalte Sterne - Early Recordings" and a special release of "Tabula Rasa", featuring an extra CD on 28th June 2004.

"Kalte Sterne - Early Recordings" is a collection of material recorded between 1980-1982 by the then Neubauten line up of Blixa Bargeld, F.M. Einheit, Andrew Chudy (N.U. Unruh), Alexander Hacke (Alexander von Borsig) and Marc Chung. The recordings mostly precede the release of Kollaps, the first Neubauten album. The album features the early singles, remastered and for the first time available as a collection compiled by Blixa Bargeld.

The release of "Tabula Rasa" is a two CD set. The first CD is the original "Tabula Rasa" release from 1993 and is packaged with a second CD featuring the singles Interim and Malediciton.

Kalte Sterne - Early Recordings

Track Listing

Fuer den Untergang
Tan-Ze-Dub
Zuckendes Fleisch
13 Loecher (Leben ist illegal)
Tagesschau-Dub
Bakterien fuer eure Seele
Kalte Sterne
Aufrecht gehen
Pygmaeen
Ehrlicher Stein
Schwarz
Thirsty Animal
Durstiges Tier

Tabula Rasa

Track Listing

CD1

Die Interimsliebenden
Zebulon
Blume (French version)
12305(te Nacht)
Sie
Wüste
Headcleaner
I. Zentrifuge / Stabs / Rotlichtachse Propaganda / Aufmarsch
II. Einhorn
III. Marschlied / Das Gleissen / Schlacht
IV. lyrischer Rückzug

CD2

The Interimlovers
Salamandrina
3 Thoughts
ring my bell
Blume (English version)
Blume (Japanese version)
Ubique Media Daemon

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Einóma : "Milli Tónverka" (Vertical Form, 11/2003)



O projecto Einóma é o resultado da colaboração entre dois realizadores de cinema de Reykjavik, Bjarni e Steindór, sendo este "Milli Tónverka" o segundo album do duo.
Temos aqui sugestões de paisagens estranhas e desoladoras, com um misticismo muito acentuado, quase gótico. Talvez banhadas pelos longos crepúsculos do fim do Outono.
Tudo isto é conseguido com uma electrónica bastante abstracta e oblíqua, com ritmos completamente disconexos, criados com sons metálicos e aquilo que parecem ecos de um barco perdido em alto mar com as ondas a baterem no casco. Talvez se possam tomar como referência as arritmias do "EP 7" dos Autechre, mas em versão mais metálica e escura.
Depois há a outra camada de sons. Mais baixa, enterrada sob as batidas, constituída por silêncios, notas de violinos, lágrimas, pianos. Atraca directamente no cérebro e causa arrepios na espinha. Fantasmas perdidos num espaço entre passado e futuro, sussurros, tecnologia, desertos lunares. Magnífico.
Este disco é um verdadeiro manjar tanto para o cérebro como para a alma. Estará aqui o futuro do industrial, vertente cinemática, já completamente assimilado pela IDM? É bem provável...

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Trapist "Ballroom" (2004, Thrill Jockey)



Da Austria chega um novo projecto de música improvisada chamado Trapist. Com um músico dos Radian (que editou recentemente o "Rec Extern" também na Thrill Jockey), os Trapist dividem-se entre o pós-punk experimental de uns This Heat e as improvisações electroacústicas do Evan Parker. “Ballroom” (segundo álbum dos Trapist) começa com um longo tema dividido em duas partes chamado “Time Axis Manipulation”. Nome apropriado para um tema que na primeira parte parece um encontro com uma pessoa, cujos contornos nos são desconhecidos, para depois nos oferecer a melodia de um baixo a ser fustigado por uma bateria certeira e por distorções ácidas. O corpo reage e chega a apetecer dançar, antes de aparecer um assobio a lembrar a electrónica alemã dos Holosud. O apelo à reacção do corpo mantém-se no vibrante “Observations took place”, que termina num novo zumbido sonhador. O silêncio volta logo, no tema “The meaning of flowers”, o significado das flores, talvez o significado dos sons com que os Trapist preenchem esse silêncio. Acabou-se o apelo do corpo, agora a mente manda e vamos para o quarto ouvir “For All the Time Spent in this Room”, longo tema de 18 minutos, onde o “Evening Star” do Robert Fripp e Brian Eno é lembrado. O tempo e o intimismo libertam os Trapist, na procura do fluxo ideal para a procura do silêncio. O ouvinte atinge o ponto onde o silêncio faz tanto sentido quanto o zumbido das máquinas que nos rodeiam.
Entre o rock e a improvisação, os Trapist distinguem-se da New Weird America porque não têm traços folk na sua música. É música urbana para sonhar, enquanto procuramos o silêncio.

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quinta-feira, maio 13, 2004

Neotropic lança novo álbum!

A Neotropic, autora do excelente "La Prochaine Fois" (editado na NTone), vai editar um novo álbum na Mush Records (editora dos cLOUDDEAD) com o nome "White Rabbits". Na webpage da artista já é possível ouvir alguns excelentes samples do álbum e apreciar a capa do novo disco:



Resta-nos esperar pelo lançamento do álbum (que está para breve) e esperar que se encontre com facilidade à venda na Europa (a Mush Records é americana).


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quarta-feira, maio 12, 2004

Hipnotica no Lux



Os Portugueses Hipnotica apresentam ao vivo o excelente "Reconciliation" a 18 de Maio (23:00h) no Lux (Sta. Apolónia, Lisboa). Terão a companhia de Wolfgang Schloegl, produtor de "Reconciliation", membro dos Sofa Surfers e mentor do projecto I WOLF, que fará um Dj Set após o concerto. Estarão também presentes no concerto os convidados dos Hipnotica no disco em questão, Abdul Moimeme e Eduardo Raon.
A não perder, até porque o bilhete (10 EUR) vale a oferta de um exemplar de "Reconciliation".

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sexta-feira, maio 07, 2004

Relembrando outros concertos de Múm (textos antigos)

Múm+Four Tet+Fat Cat DJs @ London 30/5/2002

(...)
E vieram os Múm. Devo dizer que as gémeas parecem dois anjos que hipnotizam imediatamente. O concerto foram, essencialmente, as cancoes do último álbum "Finally we are no one". E que cancoes!!... Da trip quase space-rock da cancao "The land between solar systems", á beleza pastoral de "Green Grass of Tunnel", da electronica a fazer lembrar B. Fleischmann de "Please sing my spring reverb", até ao sublime cancao "Now there's that fear again" a fazer lembrar um encontro entre os Low e os Boards of Canada, era quase impossível nao senter algum arrebatamento. Pena foi o som estar demasiado baixo. As versoes eram ligeiramente diferentes do álbum, gracas a uma presenca forte da bateria. Tal como os To Rococo Rot, os Múm optam por tocar ao vivo tudo o que for possível. Curiosamente é uma das manas que trabalha no laptop, mas há algumas trocas de instrumentos ao longo da actuacao. A dimensao humana da música deles ganha uma cor especial. Nao pensem, contudo, que os Múm (tal como o Four Tet) sao uma banda para Festivais ou grandes salas. Eles sao o oposto disso. E sao realmente uma banda pequena, estilo do it yourself.
Só foi pena o Bar nao ter as mesmas condicoes do Paradise Garage para o concerto ser perfeito. No encore ainda houve tempo para "The Ballad of the broken birdie records", uma cancao do primeiro álbum.
(...)



Kitchen Motors live@London (Múm, Slowblow & Emiliana Torrini e Apparat Organ Quartet)

(...)
O concerto começou com os Múm. Ou, para ser justo, 3/4 dos Múm, uma vez que uma das gemeas nao esteve presente. Como explicou receosamente mais tarde a Kirsten Bjork, a ideia foi apresentar cançoes nao editadas, pois na KM prezam muito a experimentaçao e a inovaçao. Nao precisavas ter dito nada, pois todos sabiam que os Múm iam tocar temas inéditos. Foi, assim, um concerto muito diferente daquele que assisti há 1 mes. Desta vez tivemos 3 longos temas instrumentais, usando dois Power Macs e diversos instrumentos "improvizados" (guitarra electrica, acordeao, caixa de musica, flautas, etc). Temas muito dificeis de descrever, revelando uma certa amargura ausente dos albuns "normais" dos Múm. Havia alguma tensao nos Múm, de resto, alienando de forma consciente a apresentaçao da música. No problem, uma vez que a música era tremendamente envolvente, a fazer lembrar o ultimo tema do "Finally we are no one". Para o fim uma nova interpretaçao da fantastica "Here comes that fear again", de ir ás lagrimas (unica cançao editada tocada no concerto). Nota: 8.5 em 10.

(...)

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Múm em Lisboa (Aula Magna, 6 de Maio de 2004)

Há momentos assim. Em que a magia aparece misteriosamente, das brumas. O concerto dos Múm ontem na Aula Magna foi emocionante, por muitas e variadas razões. É a 3ª vez que vejos os Múm ao vivo (a primeira vez em Lisboa), e o facto de acompanhar os Múm desde fases tão diferentes da sua carreira faz sempre sentir algo especial por esta banda. São as memórias de um primeiro concerto num bar de Candem Town em Londres, ainda com a Gyða Anna Valtýsdóttir... e a memória de pouco tempo depois (cerca de 1 mês) a Gyða abandonar o grupo, originando um concerto triste (mas vibrante) na ICA de Londres, constituido inteiramente por temas inéditos. Concertos marcados por uma electronica semi-artesanal, misturada com alguns sons acústicos como o acordeon, e uma vontade de ir além e procurar o que não é óbvio, mesmo que para isso seja necessario desistir da pop, mesmo que para isso seja necessario não estar na moda.

Este concerto foi muito diferente dos outros que assisti. Agora há muito mais músicos e instrumentos em palco, como guitarras electricas e trompetes. Embora o cerne do grupo seja agora um trio, visto que a partida da Gyða foi definitiva. Em compensação temos músicos como Samuli Kosminen, percussionista finlandês que impressionou há cerca de 6 meses atrás quando veio a Portugal no projecto Kluster do Kimmo Pohjonen. Este é um aspecto fundamental. A sua presença faz com que muitos dos sons que eram gerados electronicamente sejam agora tocados ao vivo por um baterista. A sua influência no novo som dos Múm é realmente muito forte. O concerto começou com temas do novo álbum, o excelente "Summer make good", numa toada intimista e espectral, repleta de sons maritimos, aves, espiritos e batidas pulsantes como o bater do coração. Canções como "the ghosts you draw on my back" causam alguns arrepios e começam a deixar na mente a impressão que este novo álbum dos Múm é qualquer coisa de especial. A voz da Kristín é estranha, lembra uma Stina Nordenstam em queda, e ao contrario do que muita gente diz, não é uma voz angelical. É fantasmagórica. Sussurrante. Que não se percebe, mas que está à volta. Isso nota-se quando chega a primeira canção da noite que não é do novo álbum, a arrepiante "now there's that fear again", talvez a melhor canção deles, em que a simbiose de tudo isto parece perfeita. A roupagem desta canção é muito nova, graças à expansão instrumental do grupo. O concerto terminou de forma apoteotica com dois encores, depois de uma segunda metade centrada nos álbuns mais antigos.

Os Múm há muito que prometiam para mim um concerto assim. Foi ontem. Depois de anos a procurar um pouco a sua identidade, depois de álbuns a evoluir de colagens aos seus idolos Stereolab, Boards of Canada e Mouse on Mars, para uma personalidade forte e vincada. Os Múm são hoje os Múm, desde as compilações da Kitchen Mottors e do “Yesterday was dramatic – Today is ok” muita coisa mudou e ainda bem. Mesmo que para isso muitos fans torçam o nariz. Mesmo que críticos com graves problemas psicologicos sintam a perversão da qual têm medo.

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segunda-feira, maio 03, 2004

Current 93 em Lisboa



Segundo o último email da Durtro, já há data para os dois concertos dos Current 93 em Lisboa: Sexta 10 e Sábado 11 de Setembro de 2004 no Teatro Ibérico, magnífica sala dos concertos do ano passado. Ainda vão ser anunciados quais os convidados para os eventos, e os bilhetes estarão à venda no fim de Maio.
Ainda segundo o mesmo email, o organizador é mais uma vez José Pacheco. Parabéns!

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Bernardo Devlin em Lisboa (Galeria Zé dos Bois, 1 de Maio de 2004)

Poderá um concerto que faz sono ser bom? Será que adormecermos ao som de alguém a cantar é uma das coisas melhores a que um músico pode almejar? Se for, o concerto do Bernardo Devlin é o melhor do ano. E digo isto sem estar a gozar. Porque este concerto foi realmente bom. Mas também cria exactamente a ambiência ideal para nos deixarmos embalar. Do Bernardo só conheço o seu primeiro álbum, já de 1993, uma das melhores experiências da música experimental portuguesa dos anos 90. Agora, contudo, está francamente mais melódico e com uma guitarra na mão. Com uma das vozes mais bonitas que conheço actualmente e uma pose a lembrar vagamente o Nick Cave, as canções dele parecem ecos remanescentes de um Peter Hamill nas trevas. A guitarra marcava o tempo exacto para criar um tempo suspenso, feito de silêncios. Tanta pose às vezes contagia a audiência, e acabou por ser algo divertido ver pessoas que passavam o tempo a rir, outras que dormiam (e que acordavam de repente para bater palmas entusiasticamente) e outras que batiam palmas antes da canção acabar e que depois insistiam para não dar parte fraca. Mas o Bernardo Devlin manteve-se impertubavel ao som dos risos, ressonar e palmas a despropósito, como se a sua música estivesse muito além de coisas tão mundanas.

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Kronos Quartet em Lisboa (Culturgest, 30 de Abril de 2004)

Os Kronos Quartet são actualmente um dos ensembles de cordas mais conhecidos no mundo, conseguindo estabelecer pontes entre a música erudita e a música popular. Capazes de tocar peças do Steve Reich ou Philip Glass por um lado, e de Sigur Rós e Jimi Hendrix pelo outro, e ainda passando por recolhas de música que vão escutando pelo mundo fora, hoje os Kronos Quartet têm uma audiência francamente heterogénea apanhando públicos muito diferentes ao mesmo tempo. Foi isso que se viu na Culturgest, e foi também um pouco isso a sua actuação. Começaram discretamente com temas de Severiano Briseño, Agustín Larra e Silvestre Revueltas, como quem vai tentando criar laços com a audiência. As interpretações foram seguindo escorreitas, e a marca distinta dos arranjos dos Kronos Quartet era facilmente identificavel. Até que surgiu o primeiro ponto alto da noite, a interpretação de uma peça de Felipe Pérez de Santiago, com a introdução de sons gravados. Aqui surgiram as lembranças da interacção dos Kronos Quartet com a electrónica da banda sonora do filme "Requiem for a Dream", que fizeram em parceria com o Clint Mansell. A ligação da electrónica de fundo próxima do drum'n'bass do Aphex Twin com as cordas dos Kronos Quartet resultou lindamente, e o concerto mudou francamente para melhor. A segunda parte do concerto foi mais virada para a música popular, tendo sido especialmente boa a interpretação de um tema do indiano Rahul Dev Burman (para mim, o meu momento favorito da noite). Os "bravos", contudo, só surgiram com a interpretação do tema "Flugufrelsarinn" dos Sigur Rós. Para mim foi o pior momento da noite, talvez porque foi o tema mais fraco. Mas era o mais reconhecivel, e... pronto. Bem, foi naquela. Felizmente a redenção veio logo depois com uma peça do Steve Reich escrita de proposito para os Kronos Quartet. Para o final dois encores. No primeiro houve a primeira surpresa da noite, uma simpática interpretação do "Mudar de Vida" do Carlos Paredes, que arrancou muitas lágrimas na audiência. No segundo encore aconteceu o outro grande momento da noite, uma apoteótica interpretação da versão do Jimi Hendrix do "Star Spangled Banner", com as cordas a soar mais electricas que a maior parte dos temas rock que se ouvem na actualidade. Foi um momento fantástico, a melhor maneira de acabar o concerto de uma bela passagem dos Kronos Quartet por Portugal.

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