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quarta-feira, maio 11, 2005

Autechre : "Untilted" (Warp Records, 2005)



Chegou mais um album da dupla Sean Booth e Rob Brown, mais conhecidos como Autechre. Como tem acontecido desde que a partilha de ficheiros na Internet se massificou, abundaram os possiveis advances deste trabalho, principalmente no Soulseek. Nestas alturas há sempre quem queira espalhar o seu próprio trabalho, partilhando música sua (ou de outros) com as músicas tendo os nomes dos temas do album que está para sair. Discutiu-se bastante sobre que "adiantamento" seria o verdadeiro, e finalmente aqui está o aguardado original, o oitavo da dupla.
Foi em "Confield" (2001) que o som dos Autechre verdadeiramente avançou para dimensões ainda mais estranhas e originais do que aquelas que já vinham navegando desde o seminal "Tri Repetae" (1995). O album seguinte, "Draft 3.0" (2003) esticou ainda mais a essa nova dimensão, ainda que não tenha conseguido aparecer tão coerente e arrojado como "Confield".
A curiosidade era grande, qual seria o próximo passo? "Untilted" não desilude. Não é um album que destrua tudo o que está à volta, que reduza a cinzas tudo o que tinha vindo a ser feito na IDM e crie desde logo um novo paradigma. Isto já foi feito várias vezes pelos Autechre, pelo menos em "Tri Repetae" e em "Confield", na minha opinião. Os outros albuns parecem consolidar ideias. Alguns como que resumem o percurso trilhado até aí - "Chiastic Slide" (1997) - enquanto outros levam as idéias já exploradas ainda mais longe, mas já não são eles a quebrar as regras - casos do já mencionado "Draft 3.0" e também do "EP7" (1999). Este novo "Untilted" encontra-se no primeiro caso, parece resumir muito do percurso dos Autechre como inovadores constantes na cena electrónica.

Ao longo do album, distinguem-se momentos que podiam ser retirados desta ou daquela fase, alguns mais arrojados, outros a re-interpretarem samples mais "desactualizados" em situações novas. O tema "Fermium", por exemplo, à primeira audição parece que poderia ter sido retirado de "LP5" (1998), mas entretanto ganha dinâmicas e variantes que só poderia ter após todo o caminho trilhado até aqui. O tema ganha um esqueleto metálico que parece estar a ser cuidadosamente destruído por micro-organismos que vão corroendo toda a sua estrutura. Chega a parecer prestes a desabar, mas termina planando calmamente sobre um deserto de mercúrio.
De repente, encolhe-se e distende-se, metamorfoseando-se no próximo organismo, de nome "The Trees". Aqui encontram-se as raízes hip-hop do grupo, servidas em ritmos convulsivos, onde qualquer MC se sentiria em plena descida a pique numa montanha russa gigante. Abranda um pouco e torna-se num verdadeiro deleite para o cérebro, com várias sugestões de ambientes fabris por baixo das contracções dos beats. Os ambientes vão ganhando força, em descargas de estática e sons quase subliminares de máquinas em acção. O último tema, um "tour de force" de 15 minutos chamado "Sublimit", chega a apresentar sons de sintetizadores saídos directamente dos anos 80, e ritmos muito electro. Tudo envolto em melodia desconstruída e batidas enroladas em estruturas intrincadas. Tem momentos que chegam a parecer um piscar de olho ao ACID que parece estar a voltar em força, mas sem nunca cair no óbvio.
Mais uma vez, um hábito ao longo de toda a carreira, a informação do cd resume-se ao essencial, a capa, o nome dos temas e pouco mais. Nada de fotos, nada de informação a mais. É a música que interessa, é nela que deve estar centrada toda a atenção.

Este é um belíssimo trabalho, pleno da complexidade a que já nos habituaram. Necessita de tempo e de muita atenção aos detalhes. Só assim lhe poderemos apreciar toda a complexidade, e compreender a enorme amplitude. É como um excelente vinho em cave, cada dia que passa vai mudando, ganhando novas subtilezas, aperfeiçoando pequenas imperfeições, pouco a pouco. Também com este album (algo que é comum a todos os outros dos Autechre) é necessário deixar repousar, ouvir algumas vezes e deixar actuar, para que o cérebro vá passando da camada mais "imediata" para os pormenores mais subtis, para as melodias mais escondidas.
Tem grande margem de evolução, portanto, apesar de já se apresentar como um dos melhores albuns do ano.
Incomplete without surface noise. Disposable information.

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