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segunda-feira, novembro 21, 2005

Murcof : "Remembranza" (2005, Leaf)



O novo disco de Murcof começa passo ante passo, beat após beat, sem sobressaltos. À passagem do primeiro minuto do primeiro tema, um sample do tema "Download" dos Skinny Puppy vem perturbar a calma aparente. Notas são retiradas de um piano, como se um braço maquinal o massacrasse. A calma volta, mas agora já com a ameaça latente da sua iminente destruição. O caos espreita por entre a doçura dos samples de violinos e violoncelos.
O caos que espreita é a negritude que se acentuou neste trabalho, em relação a "Martes", o album de estreia. O segundo tema mostra um pulsar nervoso, de estática e beats entrecortados, que se transtorna ainda mais com as notas aparentemente disconexas de um piano e o silvo picante de um violino. O ambiente é quase lúgubre.
O método continua o mesmo, pelo menos na forma - samples de cordas retirados de compositores clássicos, como Ligeti, Gorecki ou Arvo Part, misturados com beats minimais, ao estilo click-house, mas sempre com muita emoção à mistura. Mas se a forma se mantém, o conteúdo é substancialmente diferente.
O trabalho anterior do mexicano Fernando Corona recebeu merecidos elogios, mas descobre-se agora que não passava de uma introdução a algo bastante mais complexo e rico. "Remembranza" chega a parecer uma ligação directa ao cérebro do mexicano. Torrentes de sentimentos, solidão, alegria, contemplação. Quase se consegue imaginar Murcof de olhos cerrados, com um interface reminiscente de "Minority Report", os seus mais íntimos pensamentos materializados à sua frente, e ele com gestos frenéticos, a arrastá-los rearranjando-os, tentando resolver um puzzle. E os sons a sairem, flutuando até nós.
O tema "Reflejo" é um dos pontos altos. Até certa altura, entre o ritmo micro-house sepenteiam notas de violinos e, a espaços, mais pianos assombrados. Após quatro minutos, tudo pára. Quase se sente a respiração do compositor. A tristeza adensa-se, depois de um suspiro mais forte, volta o ritmo anterior com mais força, com raiva, mesmo. Como se durante a pausa se procurasse uma justificação para algo que não é sequer inteligível. E a loucura não anda longe.

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