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terça-feira, maio 31, 2005

HOOD @ Galeria Zé Dos Bois (Lisboa, 30 de Maio 2005)



A noite começou com Adrian Crowley, mais um singer/songwriter para juntar na caderneta da especialidade. Com uma voz entre Mark Eitzel e Nick Cave, ora sozinho com uma guitarra, ora acompanhado à bateria, foi demasiadamente parecido com tantas outras coisas do mesmo género.
Após uma pequena pausa, em que os Hood aproveitaram para deambular pelo bar da Zé Dos Bois, cravando cigarros e trocando algumas palavras com quem os reconhecia, começou o concerto mais esperado da noite - para não variar, com um grande atraso (00:15h).
"The Lost You" foi o primeiro tema a ser mostrado. Viu-se logo ao que vinham: começaram com um autêntico estrondo sónico, bateria, guitarras, baixo e samples em máxima potência para chamarem as pessoas para a sala de concertos. Depois então o hip-hop partido, ora comprimido ora distendido de "The Lost You" (à moda de Prefuse 73) foi tocado com a bateria em diálogo com a guitarra. Sempre em alto volume e sem medo da distorção.
Os Hood do último album "Outside Closer" (Domino, 2005) são melancólicos, pastorais, pintam a solidão como os Bark Psychosis, piscam o olho aos detritos sónicos dos My Bloody Valentine, e deixam-se arrastar por micro-organismos da electrónica, com samples de field-recordings e alguns ritmos mais abstractos. Conseguem navegar mesmo na fronteira do desespero e da esperança. O tema "End Of One Train Working" é um belo exemplo disso: guitarra acústica, voz quase suspirada, e palmas ritmadas. Entretanto, a voz é gravada e vão-se repetindo samples de frases, palavras, sílabas. Acordes perdidos de violoncelos, voltam as palmas. Tão melancólico como um pôr do sol à beira mar.
Os Hood do concerto de ontem na ZDB são furiosos, sónicos, crus, com momentos à beira da loucura. Continuam com a melancolia que os caracteriza, mas agora mais perto de uns Mogwai mais indies, de uns Radiohead mais angustiados. A voz era propositadamente áspera, longe da limpeza quase sussurrada do album. Os samples eram fumarentos, os ritmos disconexos. Apenas as imagens projectadas atrás do palco continuavam com o feeling do album, bucólicas, relatos de viagens pelo campo, estradas esquecidas, solidão.
Destaques para os belíssimos “The Negatives...” e “Any Hopeful Thoughts Arrive”.
Pena que este concerto tenha sido apanhado pelo habitual marasmo de segunda-feira à noite, pela falta de publicidade nos jornais habituais (“Y”, “Blitz”, etc., que deviam prestar mais atenção às informações importantes que lhes passam ao lado) e por esta fase de muitos concertos (este ponto é positivo). Tudo isto fez com que este concerto tivesse pouquíssimo público a assistir.

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segunda-feira, maio 30, 2005

Monolake @ BRG2005 (Estádio Municipal de Braga, 28 de Maio 2005)



Tive oportunidade de comparecer ao terceiro dia do festival BRG2005, que se realizou no fantástico Estádio Municipal de Braga. Foi muito bom o espaço encontrado para a realização dos concertos de música electrónica - por trás de uma das bancadas. O ambiente frio e a envolvência magestática de todos os componentes daquele estádio, com a pedra e o aço como principais materiais, tornaram o ambiente perfeito para o que se viria a ouvir no concerto de Monolake. Nota negativa apenas para a falta de público e para a falta de lugares para as pessoas se sentarem (junto aos bares, por exemplo). Isso fez com que as pessoas usassem a bancada do estádio quando queriam descansar. Podia não se ver/ouvir os concertos, mas pelo menos a vista era deslumbrante.
O concerto de Monolake começou há 01h da manhã, uma hora depois do que estava no programa. Até aí, tanto Outersites v.3 como Pedro Tudela se tinham apresentado no palco principal, munidos com os seus laptops, e com o suporte visual a ser projectado atrás deles, por cima desse palco. Robert Henke preferiu juntar-se ao público, e instalou-se na "cabine de som", mesmo a meio dos espectadores, projectando o suporte visual no tal palco principal (para isso contou com a ajuda de outra pessoa), que ficou vazio. Isto provocou alguma confusão, com as pessoas a dividirem-se entre ficar de costas para o palco a olhar para o que fazia o Alemão, ou a olharem para o palco vazio, de frente para as colunas de som e para as imagens projectadas, e de costas para o artista.
O concerto começou com uma versão bastante alargada de "Invisible" (durou cerca de 15 minutos). Logo aí se notou que Monolake estava a fazer tudo ao vivo, e que iria apresentar versões muito mais dançantes dos temas dos albuns. Apesar de ter um laptop à sua frente, quase não lhe tocava, usando uma pequena mesa de som ligada ao portátil para "lançar" os samples.
Variando entre versões de temas do novo album ("Polygon_Cities" - sai em Junho) e do anterior ("Momentum"), apresentou uma hora em que foi impossível estar parado. Os destaques vão para os temas "Cern" e "Reminiscence". Este último conseguiu colocar toda a gente a dançar, mais uma vez em versão alargada, Robert Henke começou algo calmo e depois foi em constante crescendo até todo o recinto, em conjunto com o público, estar a vibrar com os ritmos cada vez mais fortes e intrincados. Quando se pensava que era impossível ir mais longe, ele lançava um novo ritmo, novos samples, até ser quase impossível seguir tudo o que estava a acontecer.
Foi uma prestação quase perfeita. Apareceram os ambientes muito futuristas que fazem a imagem de marca Monolake nos albuns, os samples de vozes robotizadas, curto-circuitos, ecos nocturnos de metrópoles hiper-desenvolvidas, etc. Mas tudo apresentado com uma envolvência de techno minimal, influências do industrial, de Plastikman, de Jeff Mills, de uma rave hipnótica e louca, mas sem nunca perder a identidade, sem nunca deixar de providenciar o alimento para os neurónios que tão bem sabe fazer.
Destaque ainda para o facto de, no final do concerto, quando Monolake deixava a "mesa de som" no meio do público, ter sido convencido a tocar um encore tanto pelos aplausos como pela intervenção directa das pessoas que o rodeavam, que lhe diziam que continuasse. Foram recebidas com um sorriso e com mais 15 minutos de música.
Não sei se Monolake ao vivo será sempre assim, ou se adaptou a sua performance ao ambiente do concerto. Mas de qualquer forma, foi o concerto perfeito no espaço
perfeito.

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terça-feira, maio 24, 2005

ENTREVISTA A ANDY CABIC (VETIVER) NA MONDO BIZARRE

Andy Cabic, líder dos Vetiver, respondeu a perguntas feitas por mim via email, antes do concerto no Lux no dia 26 de Maio. As respostas encontram-se na agora online neste URL.


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sábado, maio 21, 2005


Nostalgia 77 : "The Garden" (Tru Thoughts, 2005)

"The Garden" é o segundo album de Ben Lamdin com o alias Nostalgia 77.
O trabalho de estreia, "Songs For My Funeral" era mais virado para o campo do hip-hop. Agora temos uma festa jazz/soul/funk recheada de psicadelismos.
Este produtor juntou-se com alguns músicos de jazz, e gravou secções de metais, contrabaixo, piano electrico, guitarra, e tratou de juntar tudo até conseguir um tipo de som bastante interessante. Parece "esquelético" no sentido em que se conseguem distinguir todos os componentes com grande facilidade, por exemplo seguir ao pormenor as improvisações das teclas enquanto os metais seguem com a sua melodia, e a bateria impõe o ritmo. Depois, ao mesmo tempo, consegue ser um som bastante "cheio", algo fumarento, como se nos transportasse para bares refundidos das noites quentes de New Orleans.
Temos então uma base jazz, muitas vezes reminiscente das big-bands dos anos 1930s e 1940s, cheia de swing. Cobre-se essa base com pitadas de funk negro e melodias que obrigam a bater o pé. Leva-se a cozinhar no calor do soul enquanto a mente viaja ao cosmos de 1969, 1970 para dois dedos de conversa com Herbie Hancock e Chick Corea, enquanto os psicadelismos das teclas e da guitarra eléctrica actuam, e fica-se com um album bem interessante, que sem ser propriamente uma obra original, ouve-se com um prazer enorme.
Lá pelo meio há também uma versão funk/soul de "Seven Nation Army" dos White Stripes, no único tema com voz (Alice Russell) do album. Uma versão no estilo do album "Every Day" dos Cinematic Orchestra com Fontella Bass.

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quinta-feira, maio 19, 2005

AGF/Delay + Jamie Lidell no jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa (18 de Maio 2005)

As primeiras palavras têm de ser para destacar o magnífico espaço que é o jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes em Santos. Uma vista excelente para o rio Tejo, um jardim muito bem tratado e calmo, um espaço perfeito para concertos.
E quase perfeito, em sitonia com o espaço envolvente, foi o concerto de AGF e Vladislav Delay. Ela apresentou-se a manipular dois laptops, enquanto ele se sentou aos comando de uma bateria, logo desde início. Tivemos então os temas do album "Explode", todos eles algo alterados em vários pormenores, seguidos com improviso de bateria por parte de Vladislav Delay (ele que já tem experiência como baterista de jazz desde os 14 anos de idade). E a mistura resultou lindamente. A electrónica de cariz urbano, ora delicada, ora intensa, produzida pela AGF dialogou com os ritmos (muitas vezes a lembrar ambientes de improviso free jazz) do Vladislav Delay. Foi um diálogo de luz e sombra, ora com Delay a acentuar os ambientes criados pela electrónica, ora a ir deliberadamente chocar com eles, empurrando-os noutras direcções.
Os destaques vão para os temas "All Lies On Us" e “Explode”.
O primeiro, dedicado pela AGF a ”um dos mais influentes MC da história do hip-hop”, foi apresentado com uma delicadeza tocante. Melodia e ritmo em perfeita harmonia. O segundo revelou uma versão muito mais forte do que a apresentada no album. Aqui a bateria de Delay foi determinante, mais “free” do que nunca. Juntamente com a forma intensa e sentida como Antye Greie cantou o tema, foi o momento mais alto destes belos 50 minutos de concerto.
A seguir veio Jamie Lidell, que começou o seu concerto a acompanhar uma gravação de um tema soul/funk com a sua voz por cima da do vocalista original. Depois continuou a cantar, já sem música, e a gravar aquilo que cantava. Aproveitou pedaços para fazer a música que foi apresentando, alterando, esticando, fazendo várias mutações com o som da sua voz, no meio do caos da bancada de sintetizadores onde se encontrava. A partir de certa altura tornou-se um pouco monótono, exagerando no caos, na repetição, que tentava misturar com pedaços perdidos de Prince, soul e funk. Abandonei o concerto passada a primeira meia-hora.
Uma palavra final para o público. Este era um evento apenas para convidados, o que deu origem a que os presentes nada soubessem ou conhecessem sobre os projectos que ali actuavam. E também não estavam ali para conhecer ou dar uma oportunidade a algo novo... Entre VIPs, figuras da política nacional, o objectivo foi ver e ser visto e não ouvir o que os grupos tinham para apresentar. É pena.
Espera-se por um outro concerto de AGF/Delay, agora num espaço onde todos os admiradores possam comprar bilhete e ver o concerto.

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terça-feira, maio 17, 2005

Animal Collective "Prospect Hummer" (feat. Vashti Bunyan) (CD, Fat Cat, 2005)



Os Animal Collective serão, talvez, uma das bandas mais à parte da música actual. Fortemente baseados num imaginário infantil e rural, desde os primeiros tempos que a sua música tem sido entrecortada pela modernidade, pela inconsequência (como aconteceu num péssimo concerto que deram no Festival Número) e pela genialidade (conferir o magnífico "Sung Tongs"). Não são vulgares, portanto, e são falsos-putos. E aqui encontram-se com uma cantora que faz actualmente parte de um certo imaginário mitico da folk hippie de finais dos anos 60: Vashti Bunyan. Neste EP de 4 canções ouve-se uma súmula de prazeres primaveris algures num campo verdejante, acústico que baste, leve e introspectivo e cheio de graça. Mas o que há aqui ainda mais para além de tudo isto são vocalizações e acordes à beira da fusão, como as vozes a atingir um nível de abstracção notável. E é neste ponto que os Animal Collective revelam toda a sua mestria, na capacidade de fazerem pequenas melodias espalhadas pelas canções partindo do quase-nada. Cada canção é um pequeno mundo, que não está à espera de ser encontrado: é só para quem já lá está, para quem for capaz de deixar a imaginação voar nestes mergulhos.

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segunda-feira, maio 16, 2005

Morreu Fernando Magalhães

Um dos melhores críticos de música de Portugal morreu.
E morreu um amigo também.

Pouco mais há a dizer, a não ser sentir uma grande tristeza por uma morte tão súbita.

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quarta-feira, maio 11, 2005

Autechre : "Untilted" (Warp Records, 2005)



Chegou mais um album da dupla Sean Booth e Rob Brown, mais conhecidos como Autechre. Como tem acontecido desde que a partilha de ficheiros na Internet se massificou, abundaram os possiveis advances deste trabalho, principalmente no Soulseek. Nestas alturas há sempre quem queira espalhar o seu próprio trabalho, partilhando música sua (ou de outros) com as músicas tendo os nomes dos temas do album que está para sair. Discutiu-se bastante sobre que "adiantamento" seria o verdadeiro, e finalmente aqui está o aguardado original, o oitavo da dupla.
Foi em "Confield" (2001) que o som dos Autechre verdadeiramente avançou para dimensões ainda mais estranhas e originais do que aquelas que já vinham navegando desde o seminal "Tri Repetae" (1995). O album seguinte, "Draft 3.0" (2003) esticou ainda mais a essa nova dimensão, ainda que não tenha conseguido aparecer tão coerente e arrojado como "Confield".
A curiosidade era grande, qual seria o próximo passo? "Untilted" não desilude. Não é um album que destrua tudo o que está à volta, que reduza a cinzas tudo o que tinha vindo a ser feito na IDM e crie desde logo um novo paradigma. Isto já foi feito várias vezes pelos Autechre, pelo menos em "Tri Repetae" e em "Confield", na minha opinião. Os outros albuns parecem consolidar ideias. Alguns como que resumem o percurso trilhado até aí - "Chiastic Slide" (1997) - enquanto outros levam as idéias já exploradas ainda mais longe, mas já não são eles a quebrar as regras - casos do já mencionado "Draft 3.0" e também do "EP7" (1999). Este novo "Untilted" encontra-se no primeiro caso, parece resumir muito do percurso dos Autechre como inovadores constantes na cena electrónica.

Ao longo do album, distinguem-se momentos que podiam ser retirados desta ou daquela fase, alguns mais arrojados, outros a re-interpretarem samples mais "desactualizados" em situações novas. O tema "Fermium", por exemplo, à primeira audição parece que poderia ter sido retirado de "LP5" (1998), mas entretanto ganha dinâmicas e variantes que só poderia ter após todo o caminho trilhado até aqui. O tema ganha um esqueleto metálico que parece estar a ser cuidadosamente destruído por micro-organismos que vão corroendo toda a sua estrutura. Chega a parecer prestes a desabar, mas termina planando calmamente sobre um deserto de mercúrio.
De repente, encolhe-se e distende-se, metamorfoseando-se no próximo organismo, de nome "The Trees". Aqui encontram-se as raízes hip-hop do grupo, servidas em ritmos convulsivos, onde qualquer MC se sentiria em plena descida a pique numa montanha russa gigante. Abranda um pouco e torna-se num verdadeiro deleite para o cérebro, com várias sugestões de ambientes fabris por baixo das contracções dos beats. Os ambientes vão ganhando força, em descargas de estática e sons quase subliminares de máquinas em acção. O último tema, um "tour de force" de 15 minutos chamado "Sublimit", chega a apresentar sons de sintetizadores saídos directamente dos anos 80, e ritmos muito electro. Tudo envolto em melodia desconstruída e batidas enroladas em estruturas intrincadas. Tem momentos que chegam a parecer um piscar de olho ao ACID que parece estar a voltar em força, mas sem nunca cair no óbvio.
Mais uma vez, um hábito ao longo de toda a carreira, a informação do cd resume-se ao essencial, a capa, o nome dos temas e pouco mais. Nada de fotos, nada de informação a mais. É a música que interessa, é nela que deve estar centrada toda a atenção.

Este é um belíssimo trabalho, pleno da complexidade a que já nos habituaram. Necessita de tempo e de muita atenção aos detalhes. Só assim lhe poderemos apreciar toda a complexidade, e compreender a enorme amplitude. É como um excelente vinho em cave, cada dia que passa vai mudando, ganhando novas subtilezas, aperfeiçoando pequenas imperfeições, pouco a pouco. Também com este album (algo que é comum a todos os outros dos Autechre) é necessário deixar repousar, ouvir algumas vezes e deixar actuar, para que o cérebro vá passando da camada mais "imediata" para os pormenores mais subtis, para as melodias mais escondidas.
Tem grande margem de evolução, portanto, apesar de já se apresentar como um dos melhores albuns do ano.
Incomplete without surface noise. Disposable information.

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terça-feira, maio 10, 2005

Antiguo Autómata Mexicano : "Microhate" (Background Records, 2005)



Antiguo Autómata Mexicano é um projecto de Ángel Sánchez, um mexicano de Monterrey com um passado ligado a grupos de noise-rock influenciados pelos Jesus And Mary Chain ou My Bloody Valentine (estes são ainda o seu grupo favorito). Entretanto comprou um computador e virou-se para a electrónica, apresentando neste album de estreia o que ele próprio define como uma união de Kevin Shields e Alva Noto.
"Microhate" é um trabalho que mostra uma interessante dimensão de techno minimal, clickhouse e ambient, a fazer lembrar as abstracções futuristas de Vladislav Delay e o groove, ao mesmo tempo maquinal e quente, de Jan Jelinek. Curiosamente o próprio Ángel conta, numa entrevista, que chegou à editora alemã Backgroud Records (que já editou Kit Clayton, Deadbeat, Sutekh ou Akufen, por exemplo) após entregar um demo seu a Jan Jelinek, que por sua vez o passou a Andy Vaz, patrão da editora alemã. Esteve também quase a editar na Polyfusia (de Mark Clifford, dos extintos Seefeel).
É um belo trabalho de estreia, pleno de subtilezas. Desde os ambientes desoladores e quase industriais de "Fluvial", passando pelos ritmos cheios de groove e nuances techno / house do tema que dá o título ao album, ou pelos clicks 'n' cuts reminiscentes da Mille Plateaux ou dos melhores momentos da ~Scape, até às paisagens mais negras e abrasivas de "Detector", nunca deixa o ouvinte distrair-se, há sempre inúmeros pormenores a deliciarem o cérebro. Como o pulsar jazz de "Enemy Smashed".
O som é sempre "fumarento", há uma espécie de manto low-fi a cobrir o burbulhar de linhas de baixo, de pequenas melodias, feedbacks, micro-organismos que podiam ter sido criados pelo compatriota Murcof, camadas de estática e ondulações que hipnotizam. Penso que na camada mais à superficie, que chega a desconcertar, se descobre a confessada admiração pelos My Bloody Valentine. Mas com fumo, estática e ciber-mutantes e em vez de feedback e maravilhosas muralhas de guitarras fora de tom.
Aconselho também um EP de 4 temas lançado na Net.Label mexicana Filtro, que inclui dois temas que ficaram de fora deste "Microhate".
Fica a curiosidade para ouvir o projecto de Ángel Sánchez que se segue, chamado Seekers Who Are Lovers, e que supostamente regressa ao seu passado de canções mais rock.

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sexta-feira, maio 06, 2005

Manyfingers + Matt Elliot na Galeria Zé dos Bois, Lisboa (05 de Maio 2005)

A noite começou com Chris Cole, mais conhecido como Manyfingers. Apresentou apenas 4 temas, sendo apenas um deles retirado do primeiro album homónimo. Esse tema foi "Ballybane", e a versão ao vivo chegou a superar a do album.Primeiro de tudo pela duração, mas principalmente pela intensidade que foi imprimindo ao longo da canção, num crescendo de emoções lento e esmagador, que finalizou com todos os sons a fundirem-se num único ruído contínuo, quase insuportável. Ou como o noise pode carregar sentimentos.
Os temas do novo album não desiludiram, muito pelo contrário. Continuam com a mesma táctica de deixar melodias e ritmos em loop constante, de ir sobrepondo loop sobre loop, numa constante pesquisa pela formula perfeita que transforme o silêncio em emoções. Uma das novidades foi a forma como os ritmos, tocados numa bateria, se
encaixaram perfeitamente nas cordas, no piano, na guitarra, etc. Chegou a dar vontade de levantar da cadeira e começar a dançar, principalmente no último tema, com um groove diabólico a rodear a habitual melancolia, enquanto Manyfingers gritava "RAIN!" em momentos escolhidos ao microscópio, para aumentar ainda mais a adrenalina. Soube mais tarde que se tratava de um tema de revolta contra a chuva constante que cai em Bristol e a melancolia que ela arrasta.
Mais uma vez foi muito aplaudido, e de negativo apenas ficou o sabor a pouco. Quatro temas foi pouco, apesar de ter sido o suficiente para confirmar Manyfingers como alguém a ter em conta.

Depois veio Matt Elliot, mais uma vez acompanhado de Chris Cole. Foi também um bom concerto, que nos permitiu viajar desde os balcãs até cabarets fumarentos e mal frequentados em França. E outra vez a maldita melancolia por entre loops de guitarra, voz e piano.
Confesso que ainda não conheço "Drinking Songs", o último trabalho do britânico, mas fiquei com muita curiosidade.
No final pudemos matar saudades do seu antigo projecto, Third Eye Foundation. Ritmos diabólicos drum'n'bass, algum noise, almálgamas de melodias em piano perdidas, notas de violoncelo completamente embriagadas, guitarras
dedilhadas por trovadores negros, saudade e tristeza num caos digital. Foi um dos momentos mais altos da noite.
Quem puder ver esta dupla, hoje no Porto e amanhã em Leiria, não percam!

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