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quarta-feira, novembro 23, 2005

Icarus "Carnivalesque" (Not Applicable, 2005)

Icarus são um duo inglês (Ollie Bown e Sam Britton) já com vários álbuns editados. Um pouco como outros músicos ingleses (por exemplo, os Spring Heel Jack), os Icarus têm formação académica na área da música e começaram durante a explosão do drum'n'bass, contribuindo com alguns álbuns que evidenciavam uma preocupação bastante mais "abstracta" que a dos produtores que apostavam nas pistas de dança como o Goldie. Talvez por causa disso não conseguiram muita notoriedade, apesar de discos como "Kamikaze" e "Fijaka" serem tão bons quanto os melhores álbuns de drum'n'bass daquela época. O tempo passou, e o drum'n'bass perdeu-se no underground da música dança, fechado sobre si próprio. Restou o Amon Tobin a puxa-lo para outros campos, até porque músicos como os Spring Heel Jack abandonaram de todo o drum'n'bass abraçando o free jazz e a electroacústica. Os Icarus acabaram por ser um pouco mais fieis que os Spring Heel Jack, não abandonando por completo os beats do drum'n'bass, mas partiram em busca de uma complexidade inexistente noutros trabalhos e abraçando o experimentalismo. Até certo ponto, há nesta atitude algo semelhante ao que acontecia com os Autechre por alturas do "Confield", e agora que os Autechre estão bem mais "ligeiros", aparentemente restam os Icarus como experimentadores maiores da electrónica inglesa. "Carnivalesque", o novo EP, representa isso mesmo. Arrisco-me a dizer que é o álbum de electrónica mais aventureiro desde o "Confield" (isto para não falar do "Supermodified" do Amon Tobin, que atira mais para outras áreas), apesar de não ser propriamente uma revolução estilistica. O que os Icarus fazem é incorporarem o saber académico (música concreta, por exemplo) e o free jazz no corpo do drum'n'bass, e revistirem tudo com os virús da música generativa de uns Oval. O resultado é um disco muito duro de ouvir, mas que se revela diferente a cada nova audição, proporcionando sempre novas sensações no ouvinte. Longe de ser um wallpaper musical, "Carnivalesque" é uma intermitência microbiana, semi-quantica, onde nada parece ser certo e cada audição é uma nova observação que abre novas possibilidades ao ouvinte. Justamente como muitas faixas do "Confield" dos Autechre. Quem gostou de faixas deste álbum como "Lentic Catachresis" irá certamente mergulhar neste mundo com igual prazer.

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Lezrod - Seleccion Natural (mp3, Test Tube, 2005)

Em apenas 2 anos, a netlabel Test Tube já lançou um impressionante número de álbuns e EPs em formato mp3. E, o mais surpreeendente, sempre com um nível de qualidade muito elevado. No quantum ducks já tinhamos destacado os lançamentos de Phoebus e Rui Gato, mas não deixamos de estar atentos ao output desta label. Chegou agora a vez de destacar o lançamento do EP de Lezrod, um colombiano fã de Brian Eno, John Coltrane e Autechre. Não raras vezes tem sido tentada uma ligação entre estes três mundos, o ambiental, o jazz e a idm, e Lezrod consegue de facto entrar nestes campos e lançar um EP rico nos detalhes e montado de uma forma irrepreensível. Cada samples é sequenciado e largado no exacto momento. Há muita frieza industrial e maquinal neste trabalho, mas isso não abala o outro lado deste EP, impregmentado de sabor a resistência num qualquer underground perdido na America Latina. Não vale muito a pena estabelecer pontos de contacto com outros músicos da America Latina como o Murcof. Por aqui há um sentimento personalizado que, contudo, é suficientemente universal para que este EP pudesse fazer sentido em qualquer parte do mundo. No fundo Lezrod também é um reflexo da tecnologia omnipresente que nos envolve e que atinge o mundo inteiro, seja ela representada pelo lado cibernético da internet ou pelo transito infernal das grandes metropoles da America do Sul. Podem sacar o disco aqui.

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terça-feira, novembro 22, 2005

Música das Esfera Celestiais





























Pelos vistos, as galáxias gostam de roque'n'role...

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segunda-feira, novembro 21, 2005

Deaf Center : “Pale Ravine” (2005, Type Records)



Depois de ouvir este disco, fui ao baú recuperar alguns trabalhos que estão na mesma sintonia de "Pale Ravine". O album "This Lush Garden Within" dos Black Tape For a Blue Girl, os dois discos de Bleeding Like Mine ("In The Eyes Of Lovelost" e "Never Again Will I Dream") e mesmo "Opuscule" dos Land. Raison D'Être também anda por aqui.
Em comum, estes discos têm o facto de exibirem sentimentos uma melancolia algo doce, que assenta numa excelente gestão do silêncio e no recurso a pianos, violinos, violoncelos, sons concretos, alguma (pouca) electrónica e um ritmo bastante lento. Chuva, Outono, o conforto de uma lareira numa noite fria.
Deaf Center são dois noruegueses, autores de um belo EP de electrónica, "Neon City". O som desta estreia em longa duração não tem muito a ver com esse EP (que era basante mais “urbano”), embora o sentimento de melancolia se mantenha.
“Pale Ravine” foi inspirado em fitas antigas, filmes mudos de 8m. A lembrança de um passado distante, impossível de concretizar, e os fantasmas que são levantados - talvez sejam ingredientes para este estranho e delicioso mundo. Tanto lembra passeios em noites frias por entre ruas empedradas cheias de história e casas de granito, como a explosão de cores, entre o amarelo vivo e o vermelho carregado das mil e uma folhas destes deliciosos dias de Outono.
Como os próprios autores afirmam, o que melhor sumariza este album é a mística e o romance subjacente a antigas peças de teatro e aos próprios edifícios. Há muitas imagens projectadas para o ouvinte e uma atmosfera que liga todo o trabalho, do primeiro ao último tema.
Um guia para a solidão, uma guloseima para reflectir e contemplar. Quase um album irmão do "Remembranza" de Murcof. Excelente.

Como curiosidade, fica o facto de um dos membros do grupo (Erik Skodvin) ter uma netlabel muito interessante – Miasmah, onde ele próprio já lançou material sob o nome Xhale.

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Murcof : "Remembranza" (2005, Leaf)



O novo disco de Murcof começa passo ante passo, beat após beat, sem sobressaltos. À passagem do primeiro minuto do primeiro tema, um sample do tema "Download" dos Skinny Puppy vem perturbar a calma aparente. Notas são retiradas de um piano, como se um braço maquinal o massacrasse. A calma volta, mas agora já com a ameaça latente da sua iminente destruição. O caos espreita por entre a doçura dos samples de violinos e violoncelos.
O caos que espreita é a negritude que se acentuou neste trabalho, em relação a "Martes", o album de estreia. O segundo tema mostra um pulsar nervoso, de estática e beats entrecortados, que se transtorna ainda mais com as notas aparentemente disconexas de um piano e o silvo picante de um violino. O ambiente é quase lúgubre.
O método continua o mesmo, pelo menos na forma - samples de cordas retirados de compositores clássicos, como Ligeti, Gorecki ou Arvo Part, misturados com beats minimais, ao estilo click-house, mas sempre com muita emoção à mistura. Mas se a forma se mantém, o conteúdo é substancialmente diferente.
O trabalho anterior do mexicano Fernando Corona recebeu merecidos elogios, mas descobre-se agora que não passava de uma introdução a algo bastante mais complexo e rico. "Remembranza" chega a parecer uma ligação directa ao cérebro do mexicano. Torrentes de sentimentos, solidão, alegria, contemplação. Quase se consegue imaginar Murcof de olhos cerrados, com um interface reminiscente de "Minority Report", os seus mais íntimos pensamentos materializados à sua frente, e ele com gestos frenéticos, a arrastá-los rearranjando-os, tentando resolver um puzzle. E os sons a sairem, flutuando até nós.
O tema "Reflejo" é um dos pontos altos. Até certa altura, entre o ritmo micro-house sepenteiam notas de violinos e, a espaços, mais pianos assombrados. Após quatro minutos, tudo pára. Quase se sente a respiração do compositor. A tristeza adensa-se, depois de um suspiro mais forte, volta o ritmo anterior com mais força, com raiva, mesmo. Como se durante a pausa se procurasse uma justificação para algo que não é sequer inteligível. E a loucura não anda longe.

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Voltou A Puta da Subjectividade

Os Quantum Ducks fizeram bem em não tirar este site da lista de links: A Puta voltou renovada, com cara nova, e com belos textos. É uma bela noticia, e um excelente regresso. :)

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Sigur Rós no Coliseu, ontem



Muito pouco tempo depois de editarem "Takk...", os Sigur Rós voltaram a actuar em Portugal. Foi um momento de reencontro para mim com esta banda: desiludido com o "()" (um álbum fraco, como ontem se viu, de resto, foram as canções deste álbum os momentos menos bons da noite), regressei a acreditar neles depois do EP "ba ba ti ki di do", escrito para uma peça de dança de Merce Cunningham (que em tempos idos quando ainda não eramos nascidos, coreografou música de John Cage). "Takk...", apesar de algumas fraquezas como um excesso de produção e de arranjos desnecessariamente complicados, exibe canções como "hoppípolla" onde o lado épico dos arranjos não é capaz de ofuscar a fulgurante emotividade da faixa. Previa-se que as versões ao vivo de "Takk..." fossem superiores à dos disco, devido ao facto de perderem os excessos de estúdio. Foi exactamente isso que aconteceu. Com um setlist hábil e equilibrado (que percorreu os álbuns "ágætis byrjun", "()" e "Takk..."), os Sigur Rós tocaram de uma forma irrepreensível, com garra e já com a tarimba de palcos das bandas mais veteranas. Sabiam exactamente como agradar o público, e fizeram. Mas ainda assim também souberam ir além da simplesmente reprodução do que foi gravado em estúdio, fazendo uma excelente gestão dos silêncios e das descargas de ruído, de tal forma que a dada altura chegaram mesmo a fazer lembrar os godspeed you black emperor!, a banda que os apadrinhou no inicio da carreira. O público, por outro lado, roçou várias vezes o histerismo adolescente um bocado exagerado, como se notou no silêncio da "viðrar vel til loftárása", onde um telemovel tocou e o público não resistiu e... riu. Para um público que exibia tanta "devoção" pela banda, é estranho quebrarem a concentração justamente num dos melhores momentos do concerto... Mas houve muitas palmas, e os Sigur Rós agradeceram no final.

Na 1ª parte houve as Amina, o quarteto que acompanha os Sigur Rós ao vivo. O EP "Aminamina" era promissor, com uma densidade algo depressiva. O concerto, contudo, foi uma desilusão. Com muitos novos temas, exibiram o B A BA da indietrónica, sem alma e sem chama, a citarem com uma enorme frequência bandas como os Múm. Mas faltava-lhes algum sangue, notava-se que era apenas simples entretenimento. A melhor faixa acabou por ser justamente a última, a mais divertida, com uma melodia que lembrava um pouco as experiências de Raymond Scott. Se as Amina seguirem este caminho, pode ser que ainda sejam interessantes. Se seguirem o caminho do resto do concerto, pode ser boa música para lojas com um qb de trendy.

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sexta-feira, novembro 18, 2005

Noticia do Dia! This Heat reeditados!

THIS HEAT BOX SUBSCRIPTION OFFER

THE BOX will contain all the released material, newly re-mastered (This Heat, Deceit, Made Available, Repeat, Health and Efficiency, PLUS a CD of unreleased material selected and re-mastered by Charles Hayward & Charles Bullen, PLUS a fat book of interviews, articles, photograph, memorabilia and documents that trace the history and contextualise work of the group.

For subscribers only, this will be a numbered edition and will come with an extra subscription item. The box is projected for the group’s 30th anniversary on February 13, 2006. Or soon thereafter. Subscribe now and you will receive the re-mastered version of the first record ‘This Heat’ (Blue and Yellow) in December, and the rest of the box as soon as it is ready.


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quarta-feira, novembro 16, 2005

Another Electronic Musician : "Use" (2005, N5MD)



O americano Jase Rex adoptou um nome bastante divertido para apresentar a sua música. Começou em 2001, exactamente como "mais um músico a fazer electrónica", com um site onde aproveitava para vender um CD-R com os temas que tinha composto enquanto estudava Física. Esse CD-R valeu-lhe uma bela crítica e um perfil na revista Grooves Magazine. Vendeu 250 unidades. Passados três anos, lançou um album em formato mp3 na editora digital EN:PEG, e passado pouco tempo foi "promovido" à editora-mãe, a N5MD.
O lema da N5MD é "emotional experimental electrónica", e este album faz-lhe jus. Tem um sentimento muito urbano, em certas ocasiões a fazer lembrar a faceta mais ambiental de Monolake. É construído como uma filigrana, muito delicadamente. Por entre suaves "estalos", melodias amenas, e alguma emoção. Vem à cabeça o inevitável Arovane, mas também se pode imaginar um Subtractive_Lad mais contido.
É um album para ouvir com muita atenção. Se o ouvinte se distrai, quando dá conta já acabou. Isto é um defeito, já que nas primeiras impressões parece que estamos perante uma obra inofensiva, sem aquele efeito hipnótico que alguns bons albuns mais ambientais provocam.
É um disco interessante, mas fica sempre a sensação que lhe falta descolar de uma certa normalidade de que enferma.

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Complicado "Haunted" (Bor Land, 2005)

Complicado é o alter-ego de Miguel Gomes, músico português que lançou recentemente o seu primeiro álbum na editora Bor Land. Ouvindo a sua música percebe-se que o adjectivo "Complicado" faz algum sentido. Se numa primeira impressão se notam semelhanças com Old Jerusalem, rapidamente se começa a perceber que Miguel Gomes se preocupa em dar um enfase especial ao lado espacial das canções. Ou seja, estamos aqui na presença de um songwriter com canções de recorte vagamente folk, mas que depois deriva para espaços que lembram o krautrock (Can do disco "Soundtracks", por exemplo) ou então algum post-rock (os Labradford, principalmente). Não é disco de grande fulgor ou exuberancia, mas a forma habilidosa com que estes elementos são organizados e interligados fazem de "Haunted" um álbum a reter. Nalgumas canções como "Lover 26", Miguel Gomes consegue mesmo incutir uma dinâmica forte e a rockalhada parece intrometer-se neste disco, e isto apesar de reter o tal lado ambiental. "Sad Summer in Mindelo" é naturalmente triste, mas o som do acordeon puxa o disco para a tradição europeia dando-lhe uma surpreendente melancolia aportuguesada (e isto apesar da canção ser cantada em inglês). "Haunted" é uma boa surpresa, um disco a descobrir e ouvir.

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terça-feira, novembro 15, 2005

Meira Asher e Sussan Deyhim na Guarda

O passado fim de semana foi marcado por uma ida à Guarda para assistir aos concertos de Meira Asher & Guy Harris no dia 11 de Novembro e Sussan Deyhim & Richard Horowitz no dia 12 de Novembro. Por entre morcelas tostadas, flocos de neve e uma visita guiada pelo músico Victor Afonso à excelente Mediateca da Guarda, assistiu-se a dois dos melhores exemplos da ligação entre a tradição da música vocal e a electrónica.

A Meira Asher é uma cantora israelita com uma vasta experiência nas artes performativas, que se tem notabilizado pela forma particularmente dura com que aborda alguns dos problemas sociais e politicos da actualidade (por exemplo, a SIDA, o conflito israelopalestianiano e o uso de crianças nas guerras). Voga entre o canto tradicional, o industrial e o noise, e há quem a tenha comparado à Diamanda Galás e a chame de cantora maldita. Neste concerto na Guarda apresentou-se, contudo, de uma forma bem mais pacificada (apesar de não prescindir dos ecos do passado mais chocante). Sem imagens projectadas, com um volume de som relativamente baixo (um dos problemas do concerto) e com pouca vontade de chocar o público, Meira Asher começou com uma canção do "Spears into Hooks" chamada "È un Uomo" (cantada em italiano ou latim?), que no contexto do álbum era uma comparação entre o sofrimento dos palestinianos com o dos judeus no holocausto e ainda o de Jesus Cristo na cruz. Nesta nova versão ao vivo, contudo, a canção perdeu um pouco essa simbologia. Mais à frente (e com um concerto fortemente baseado em canções inéditas) houve momentos muito fortes, com uma máquina de escrever e ainda com microfones de contacto e pequenas erupções de noise. A inspiração da parte instrumental (controlada por Guy Harries) parecia advir dos Pan Sonic e cultivadores do género noise como Merzbow, Kid 606 (do álbum "PS I love you") e de Scott Gibbons (também conhecido por Lilith). Faltou ao concerto um pouco mais de violência para ser mais eficaz.

A Sussan Deyhim e Richard Horowitz são francamente diferentes na abordagem à canção, muito mais tradicionais, apelando a uma onda mais contemplativa e interior da música persa. Baseada em poemas sufis, Sussan Deyhim é dona de uma voz fantástica, e não teve problemas nenhuns em usa-la. Richard Horowitz é particularmente sensível na forma como acompanha o canto de Sussan Deyhim, usando flautas e percussões discretas, que aquecem as canções. Nalguns momentos em que Deyhim assumiu de forma clara a sua faceta de experimentadora nas vocalizações, contudo, o concerto foi verdadeiramente exaltante, o que levou a pouco e pouco que o público fosse conquistado. Terminou com uma ovação de pé, e com canções em inglês que me fizeram lembrar vagamente a Diamanda Galás (justamente), o que me leva a supor que o novo álbum da iraniana seja a não perder de forma alguma.

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Jan Jelinek : "Kosmischer Pitch" (2005, ~scape records)



Jan Jelinek é alemão, de Berlim, e tem um gosto especial por house. Especialmente pela sua vertente mais minimal e jazzistica. Ficou conhecido por alguns singles que lançou como Farben na editora Klang Elektronik (depois compilados no album "Textstar" de 2002), house minimal misturado com ambient. Já deixavam adivinhar uma progressão na direcção do click-house ou do techno (como no album "Personal Rock" de 1999, lançado como Gramm na editora Source Records).
Já assinando como Jan Jelinek, ligou-se à editora ~scape (propriedade de Stefan Betke, mais conhecido por Pole) e lançou uma obra muito importante, "Loop-Finding Jazz Records" (2001), onde trabalhou samples de discos de jazz antigos, transformando-os em loops e suaves fluídos, que arranjou com a mestria de um Biosphere. Criou um album quase perfeito, onde o som se mistura com o silêncio, e os loops de samples de jazz nos fazem tão depressa deixar envolver como nos sobressaltam de emoção. Um todo em divina suspensão, com o dub sempre à espreita.
No ano seguinte apresentou outra obra excelente, "Improvisations And Edits, Tokio 26-09-2001" (2002, Audiosphere), um concerto onde se apresentou em conjunto com os japoneses Computer Soup, autores de jazz misturado com elementos electro-acústicos. É um album dificil, mas onde Jelinek explora um minimalismo bastante diferente do que apresentou no album editado na ~scape. Uma longa sessão de improvisação, com os dois projectos em diálogo, a encontrarem pontos de vista em comum. Muitíssimo interessante.
Este gosto pela mistura do que produzia com o seu laptop, com grupos que misturassem electrónica e instrumentos acústicos "ao vivo" foi retomado em "1+3+1" (2003, ~scape), onde se juntou com o grupo Triosk, um trio australiano, e trabalhou através da Internet, com os temas a andarem para trás e para a frente até ao produto final. Juntaram-se todos para uma digressão posterior ao lançamento do album. O resultado era bom, ainda que aquém da mestria mostrada anteriormente.
Ainda em 2003, afastou-se do jazz no lançamento "La Nouvelle Pauvreté", onde anunciou um grupo imaginário - The Exposures - que supostamente teriam tocado com ele. Foi um regresso ao universo do click-house, mas mais perto do que foi apresentando como Farben. Usou a sua própria voz como mais um elemento, afastou-se do silêncio, e chegou-se mais perto do universo da dança, do pop ou mesmo da soul. Não é um disco que me entusiasme tanto como os outros, embora seja interessante.
Agora, em 2005, volta o mago do clicks'n'cuts, desta vez com uma homenagem aos tempos do Krautrock. Apresenta um disco hipnótico, feito de loops de guitarras e outros instrumentos, que supostamente foi retirar a clássicos da "música cósmica" dos anos 70, de bandas como Popol Vuh, Can, Cluster ou mesmo Neu!. Aliás, o espectro destes últimos parece pairar sobre um dos melhores momentos do album, "Lithiummelodie 1". Sob um ritmo reminiscente do house minimal, mas mais lento, entre um loop de estática, repetem-se num círculo hipnótico alguns acordes de guitarra. O ritmo parece ir aumentando cada vez mais a intensidade, vários sons que parecem retirados de sintetizadores cósmicos com defeito impregnam o tema, tudo parece pronto para descolar a qualquer momento. Uma intensidade contida que serve de exemplo a todo o album.
Vibraphonspulen é outro destaque, com Jelinek a mostrar como é um "mestre do silêncio", pela forma como o consegue gerir, como acumula subtileza após subtileza, num todo que embala o corpo e impele a mente a viajar. "Loop-Finding Jazz Records" está sempre presente, mas agora com uma temática desligada do jazz e muito aproximada à procura do infinito, ao escapismo, ao espaço sideral. Repetição após repetição, a mente é hipnotizada. Há sempre um micro-groove viciante para satisfazer o corpo, mas as camadas infinitas de pormenores são um alimento muitíssimo apetitoso para o cérebro. Confirmar em "Im Discodickicht". Confirmar em todo o album, que não se deve perder.

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segunda-feira, novembro 07, 2005

Sofa Surfers : "Sofa Surfers" (2005, Klein Records)



Estão de volta os Sofa Surfers, grupo austríaco que se estreou em 1997 com o album "Transit", que na altura conseguiu atenção muito à conta de toda a "Cena Austríaca" que se estava a criar, com os famosos Kruder & Dorfmeister à cabeça. "Transit" foi um dos melhores trabalhos (talvez mesmo o melhor) a sair dessa cena. Era mais arrojado, não se limitando ao soporífero e preguiçoso "lounge" característico da maior parte dos sub-produtos de toda essa onda. Misturava dub com rock e música de dança, IDM e muita energia. Conseguiu reconhecimento de muitas tribos, desde o rock à electrónica.
Em 1999 apareceu "Cargo", um album que construiu um bloco compacto de dub, industrial e electrónica. Cheio de ambientes fumarentos, lembrava mais fábricas abandonadas do que salas de bares ou o confortável sofá da sala. Em 2002, depois de um album de remisturas, lançaram "Encounters", com vocalistas convidados e com a novidade de uma certa aproximação ao mundo do hip-hop. É o album mais desiquilibrado dos três, com momentos altos, mas muitos momentos menos bons.
Agora aparece este album sem nome (ao qual os próprios se referem como "The Red Album"), e que marca uma viragem: não foi usado qualquer computador. Entram completamente no domínio do rock, ou melhor, fazem a sua própria interpretação desse estilo. Temos um som fumarento, cujas linhas de baixo hipnóticas continuam a fazer a mente viajar lentamente pelos domínios do dub, com as guitarras bastante cortantes, por vezes a aproximarem-se mesmo do metal ("One Direction", por exemplo). Chegam a lembrar os Radiohead dos últimos albuns, ou os ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead de "Tags, Sources And Codes". Entre o cerebral do pós-rock e a força do rock. Mas a lembrar o "som Sofa Surfers", apesar de todas as mudanças.
Talvez devido às aventuras de Wolfgang Schlogl no seu projecto I-Wolf, em alguns temas a voz do vocalista convidado, Mani Obeya, aproxima-se bastante do soul, como em "Love As A Theory". Aliás, a voz dele é quente, algo rouca, e muito agradável.
Os temas são viciantes, cheios de energia ("Good Day To Die", "White Noise"), apetece voltar a eles repetidamente, e as letras muito interessantes. É um album que prende, mas não é adequado a viagens pelas ondas no sofá. É excelente para ouvir ao volante pelo trânsito da cidade. Como curiosidade, fica a definição dos próprios Sofa Surfers ao surpreendente som que apresentam : "Like an harcore band after the noise has abated".

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sexta-feira, novembro 04, 2005

Polar : "EME" (EN:PEG Digital, 2005)



O duo Polar (Nuno Rosa e Ricardo Costa) volta às edições com este "EME", outra vez na editora digital EN:PEG. Este album continua na linha de "Light Years" do ano passado, electrónica tratada com microscópio e bisturi, entre melodias que transpiram melancolia e a aspereza, quase dançante, dos ritmos abstractos e circulares. Em certos temas, como "Gba", quase chegam ao formato canção.
No mundo dos rádios amadores, a sigla EME significa "Earth Moon Earth", ou seja usar a Lua para reflectir sinais enviados da Terra, como se a Lua fosse um satélite passivo, e assim estabelecer comunicação. Apesar das várias dificuldades que esta forma de comunicação comporta, é uma prática a que se dedicam alguns operadores de rádios amadores mais experimentais. Não sei se os Polar são apreciadores do radio-amadorismo, mas a música que eles apresentam tem certamente ligações ao imaginário da tecnologia e de tudo o que gira à volta da ficção científica.
O tema "EME" é um dos pontos altos do album, começa com algumas interferências, que vão aparecendo por entre todo o tema, envolvendo as melodias e as batidas, que transportam para o magnífico "Tri Repetae" dos Autechre, numa vertente menos industrial e mais humanizada.
A certa altura no album, os temas começam a ser invadidos por frases soltas, ditas por uma voz saída do brinquedo Speak & Spell, criado em 1978 pelas Texas Instruments, e que servia para ir educando as crianças sobre como falar e soletrar, como o nome indica. Divirtam-se com este emulador!
É interessante este toque de "electrónica vintage", a fazer lembrar a nossa infância de exploradores ávidos de computadores como o Spectrum ou o Commodore Amiga, que também tinham estas vozes computorizadas. Embora estas vozes chamem muito a atenção no início, distraindo o ouvinte da música que tem por baixo, ao fim de algumas audições as vozes envolvem-se bem com o resto dos temas e das outras vozes sampladas, e o resultado é muito interessante.
Vale bem a pena investigar todo este mundo de aventuras. E por apenas 2 dólares (€ 1.67), não há desculpa para não brincar. Comprem aqui!

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quinta-feira, novembro 03, 2005

Colleen "The Golden Morning Breaks" (Leaf, 2005)
texto publicado na Mondo Bizarre, nº 23, Julho de 2005


A francesa Cecile Schott gosta de nos contar histórias. Não as histórias do “era uma vez...” que nos contaram uma vez, algures na infância, mas sim as histórias dos nossos sonhos e das nossas memórias. Coisas impregnadas algures no nosso interior, coisas que não conseguimos nomear ou explicar sequer. Não é por acaso que todas estas histórias contadas no novo álbum “The Golden Morning Breaks” são instrumentais, por vezes dando a sensação de inacabadas, quase sem palavras. Este álbum funciona quase como um espelho, pois canções como “I’ll read you a story” ou “The happy sea” rebuscam pedaços de nós. Musicalmente este novo álbum de Colleen é completamente acústico, pois a francesa decidiu abandonar os samples de “Everyone alive wants answers”, completamente rendida a um certo ideal de independência, onde tudo é para ser produzido por ela própria. E se aparentemente não há grandes diferenças entre os dois álbuns, audições mais atentas revelam que “The Golden Morning Breaks” consegue ser ainda mais onirico que o anterior, devido ao seu caracter semi-tosco que lhe dá um encanto aparentemente inacabado, ou se preferirem aberto. Aberto para a imaginação dos ouvintes.

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Mondo Bizarre nº 24 chegou!


E aí está a nova edição impressa da Mondo Bizarre. Na capa temos os The Vicious Five e lá dentro muito nectar, como é habitual neste sumo:

Boards Of Canada - Richard Hawley - Lightning Bolt - Pelican - Death Cab For Cutie - The Skaters - Super Furry Animals - Richard Swift - Animal Collective - Silver Jews - Why? - Bor Land - Flanger - Franz Ferdinand - The Vicious Five - Devendra Banhart - The Deadly Snakes - Rogue Wave - The Weathermen

A minha contribução para este número foi, desta vez, mais pequena, com um artigo sobre os Boards of Canada e críticas aos novos álbuns de Murcof, vvv, Broadcast, Khonnor e Fennesz & Sakamoto.

Não queria também deixar de destacar a entrevista à Meira Asher feita por Victor Afonso (disponível apenas online), que irá actuar no próximo dia 10 de Novembro na Galeria Zé dos Bois, Lisboa, e dia 11 de Novembro na Guarda; e ainda a festa do 6º aniversário da Mondo Bizarre no Lisboa Bar no próximo dia 30 de Novembro. É também altura para dizer PARABÉNS Mondo Bizarre, pois claro. :)

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