<$BlogRSDURL$>

domingo, maio 28, 2006

Burial : "Burial" (Hyperdub, 2006)



Burial é outro nome que está a fazer furor no Dubstep com este album de estreia. Juntamente com Boxcutter (ver crítica abaixo), está a abrir o Dubstep a outras influências, uma espécie de evolução feita de dentro para fora do género.
Burial começou por ser fan do jungle / drum'n'bass da década de 90, confessado apreciador de Photek, Omi Trio e dos vários projectos ligados à editora Metalheadz de Goldie. No final dos anos 90 descobriu o Garage, e foi fazendo música para ele próprio e para os seus amigos, até descobrir a editora Hyperdub de Kode9, um dos grandes nomes do Dubstep. Dessa ligação nasceu este album, uma obra maior que revela a frescura deste género da electrónica Londrina, e faz com que os fans dos mais variados estilos de música virem para lá a sua atenção.
É sintomático que a identidade de Burial se mantenha misteriosa, e algo que ele tenta esconder. A música é o mais importante para ele, e o mistério torna a sua audição ainda mais excitante. Confessa que ficou desiludido quando soube que o seu herói Photek era na verdade Rupert Parkes, uma pessoa normal como outra qualquer, no seu estúdio em Ipswich. Burial confessa ter aversão a estúdios, já que não se considera um músico, não tem treino musical, e usa ferramentas muito rudimentares para construir o seu som. Por exemplo, o programa Soundforge. E sem sequenciador, prefere colocar as batidas por instinto, sem qualquer preocupação para que apareçam "certinhas".
Na capa do album, a zona de South London vista de cima. Em tons de cinza. Há uma melancolia e uma escuridão que percorre todo o trabalho, em parte devido ao sentimento de que estamos a ouvir um velho album em vinil. Há estática, picos típicos do vinil, uma camada profunda de som que remete para algo já passado. E que remete também para o som típico das editoras ligadas à Basic Channel, o eixo Berlim - Detroit, entre o dub e o techno. Vladislav Delay, Porter Ricks, os primeiros tempos de Monolake, todos da editora Chain Reaction. Também o som característico de Pole parece ser uma influência. Mas não. Burial confessa não conhecer estes grupos. O som que apresenta é resultado da escassez dos meios que prefere usar, tentando esconder as imperfeições que daí advêm. Samplou o crepitar de vinil, de fogo, de chuva, de estática de emissões piratas de rádio. E assim preenche os espaços entre as batidas, "enterrando" pequenas melodias, pequenos samples. O som resultante soa novo e fresco, como uma evolução lógica do drum'n'bass mais cerebral de Photek, Icarus ou J. Majik. E a evocar a solidão de grandes metrópoles, como Vladislav Delay ou Monolake.
No tema "Prayer" samplou um loop da batida principal de "Teardrop" dos Massive Attack, tornando-o na plataforma ideal para criar um sentimento ao melhor estilo dark-ambient, pelo meio de ecos, reverberações, dub. Muito, muito bom. Em "Distant Lights", samples de vozes que parecem saídas de um disco de soul dão um ambiente que remete para uns Two Banks Of Four mais negros e com som esquelético. Os sub-graves fazem vibrar tudo, sente-se o calor do dub, quase sufocante. É uma simbiose quase perfeita entre tema para uma pista de dança e para ouvir com auscultadores, de olhos fechados. É nesse fio da navalha que se move Burial. O cérebro e o corpo. Sedutor.
Um dos albuns do ano, sem pontos fracos. Arrisco a afirmar que será um clássico.

Comments:
Descobri este disco quando falaste dele no Fórum Sons, custei a arranjá-lo, mas lá consegui e fiquei vidrado com o que ouvi. Obrigado pela descoberta.
 
É um disco que vale bem a pena descobrir. E que continua a surpreender após várias audições :)
 
Enviar um comentário


referer referrer referers referrers http_referer

This page is powered by Blogger. Isn't yours?