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sexta-feira, julho 07, 2006

Mr. Lif : "Mo' Mega" (Definitive Jux, 2006)



Depois do anterior "I Phantom" (2002), album de estreia, se ter centrado na monotonia da vida moderna, o emprego, a falta de tempo para a família e para nós próprios, a obsessão pelo dinheiro, agora estamos mais no campo da adaptação dos chamados africanos-americanos à América, o racismo e a "escravatura" dos tempos modernos.
"Mo-Mega", o título do album, explicado pelo próprio Mr. Lif: Mo' representa o dialecto dos escravos negros na América. Mega representa o mundo hiper-modernizado em que vivemos. Mo'Mega é a sobreposição dos escravos e da elite, sem que haja qualquer terreno de entendimento entre as duas partes.
No campo musical, a maior parte dos temas é produzido pelo brilhante El-P, ex-Company Flow e patrão da editora Definitive Jux. Nos primeiros cinco temas, a parte instrumental que ele apresenta continua pelo caminho que apresentou em "Fantastic Damage", o seu album a solo. Forte, pesado, como se estivesse constantemente a tentar retratar os últimos momentos antes do apocalipse. Estilhaços que podiam ter saído do electro-industrial dos 80s/90s, um ambiente de ficção científica algo retro, tudo bem envolvido em funk/jazz e muito groove.
Não por acaso, estes primeiros 5 temas são os mais fortes, também em termos de letras. Desde a paranóia da segurança pós 11-Setembro, consumismo compulsivo ("Buy more Save more / We're your Saviour / Get 6 if you trade 4 / Chance of a lifetime"), críticas às administrações Bush e Clinton, a falta de atenção em relação aos massacres no Darfur e Rwanda quando comparados com a intervenção no Kosovo, a vida nos ghettos ("Up in the ghetto We're taught to bust shots / That's a bird in a bush and a fine line to walk / Get down / Stay down / Hold up / Back the fuck up / Get up / Stay up / Hold up / Back the fuck down! / Brothers is taught to bust shots"), a privacidade cada vez mais ameaçada, etc.
A partir do sexto tema, o ambiente fica mais animado. Produções do próprio Lif mostram os temas mais acessíveis e mesmo dançáveis que já lhe ouvimos, com muito sentido de humor e surrealismo à mistura (como em "Washitup!", uma dissertação sobre os dilemas do sexo oral sem a mais cuidada higiene por parte das "damas", com um ritmo dancehall a fazer as ancas mexer). Em "Long Distance", El-P volta aos comandos, e constrói um ritmo cheio de groove polvilhado com samples dos gemidos de um casal em sexo escaldante, enquanto Mr. Lif divaga sobre as dificuldades de manter uma relação à distância, e os rituais escaldantes do reencontro.
Depois deste intervalo de três temas, as coisas voltam a ficar mais sérias, com o album a terminar numa carta emocionada de Lif à sua filha, em "For You".
Em conclusão, Lif volta em grande, com convidados de peso (Aesop Rock, Blueprint, Akrobatik, Murs, e mesmo El-P dão contributos vocais). É um album variado, capaz de agradar a apreciadores das diversas facções do hip-hop, e que vale a pena ouvir.

Comments:
Fiquei com vontade de ouvir. Obrigado por esta excelente descrição.
 
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